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A Reforma Protestante e sua (ir)relevância hoje

  • Foto do escritor:  Ribamar Diniz
    Ribamar Diniz
  • 30 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

O próximo dia 31 de outubro, a Reforma Protestante completará 508 anos. A data deve passar despercebida, salvos por alguns sermões, palestras, publicações e lives de igrejas reformadas e entusiastas da temática. A mídia deve ignorar a data em seus principais veículos. O Halloween, entretanto, terá ampla cobertura na mídia e em atividades da sociedade, inclusive nas escolas públicas.


Lamentavelmente, A Reforma Protestante, apesar de seu legado espiritual, com repercussões para a liberdade de expressão e religiosa, educação, economia e democracia, perdeu espaço para o Halloween, com seu rastro espiritualista, demonização da cultura e influência deletéria sobre as crianças.      

Em uma sociedade marcada pelo desinteresse crescente na religião prática, que questiona as verdades absolutas da Bíblia e se apega ao secularismo desenfreado, a Reforma Protestante, com sua herança religiosa baseada nas Escrituras como fonte de verdade, não chama a atenção da maioria das pessoas. O aniversário da Reforma Protestante, a cada ano, perde sua força. Por um lado, a sociedade pós-moderna tem outros interesses e preocupações.


Por outro lado, tristemente, as igrejas fruto desse movimento religioso do século XVI, que dividiu católicos e protestantes, paulatinamente têm feito concessões para reduzir tensões. A visita de quatro papas (e Francisco I, Bento XVI, João Paulo II e Paulo VI) e a recente eleição de um papa norte-americano são um prenúncio sombrio do fim da influência da Reforma neste berço do Protestantismo moderno. A máxima dos pais peregrinos uma igreja sem papa e um estado sem rei foram trocados pelo politicamente correto, pelo sonho americano e o ecumenismo. A visita, em outubro de 2025, do rei Charles III ao Vaticano para um encontro histórico com o papa Leão XIV, para uma missa rezada pelo papa na Capela Sistina, foi uma cerimônia ecumênica sem precedentes [1], interpretada por protestantes conservadores como o velório de um movimento que prometeu libertar o mundo das algemas dogmáticas do papado medieval, no distante e esquecido século XVI.

Outro forte indício do fim da Reforma a nível mundial foi a seguinte declaração conjunta, assinada por protestantes e católicos, em 2017, por ocasião dos 500 anos da Reforma: “Pedimos perdão pelos nossos fracassos, pelas formas como os cristãos feriram o Corpo do Senhor e se ofenderam uns aos outros durante os 500 anos transcorridos desde o início da Reforma até hoje”. Segundo o documento: “Pela primeira vez, luteranos e católicos consideram a Reforma desde uma perspectiva ecumênica, o que deu lugar a uma nova abordagem dos acontecimentos do século XVI que levaram à nossa separação”. [1] O documento também menciona outras declarações assinados por outros grupos religiosos, que, no passado, vinham Roma sob uma outra perspectiva, mas, infelizmente, mudaram de opinião:


“Alegra-nos o fato de que a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em um ato solene pela Federação Luterana Mundial e pela Igreja Católica Romana em 1999, também foi assinada em 2006 pelo Conselho Metodista Mundial e pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas neste ano de comemoração. Além disso, hoje mesmo será acolhida e recebida pela Comunhão Anglicana em uma cerimônia solene na Abadia de Westminster. Sobre esta base, nossas comunhões cristãs podem construir um vínculo mais estreito de consenso espiritual e testemunho comum a serviço do Evangelho.” [2]


Caso os reformadores ressuscitassem hoje, ficariam horrorizados com tais declarações. Os protestantes de hoje, infelizmente, esqueceram que seus ancestrais pagaram com seu sangue a ousadia de se separarem de Roma, por acreditarem nas Escrituras como única regra de fé e prática e na salvação pela graça, mediante a fé no sacrifício expiatório de Cristo. Trocar a tradição e dogmas da Igreja Católica pelo evangelho puro presente nas Escrituras foi o grande alvo da Reforma Protestante, tanto dos reformadores ministeriais como dos radicais. Apesar das falhas que eles cometeram, suas intenções eram nobres e precisam ser seguidas por quem ainda quer ser chamado de protestante. Entretanto, se o protesto não existe mais, como transparece nas declarações e no estilo de vida de muitos crentes, a alcunha protestante torna-se irrelevante. É unicamente a fidelidade as Escrituras, a devoção suprema a Cristo e o senso de missão que tornariam, novamente, a Reforma Protestante relevante entre nós.  Somente então, o mundo sentiria os seus efeitos. 

A Reforma Protestante tornou-se irrelevante para nossa geração, por nossa própria culpa. Temos vergonha do que nossos “pais espirituais” nos legaram e não avançamos em novas descobertas (Ap 3:1-2) prometidas com a Guia do Espírito Santo de Deus (João 16:13).


Nesse sentido, os Adventistas do Sétimo Dia, movimento restauracionista do século XIX, estão entre aqueles que ainda valorizam os ensinos dos reformadores, agregando a eles novas verdades fundamentais para nosso tempo, conforme a previsão profética (Isaías 58:12-14; Hb 3-4; Ap 10:9-11; 12:17; 19:10). Embora se considerem herdeiros da Reforma Protestante, os adventistas acreditam que há verdadeiros cristãos em toda a comunhão cristã, pois muitos filhos de Deus seguem fielmente a luz que sobre si brilhou.          


A Reforma Protestante do século XVI foi o maior movimento emancipatório da fé cristã desde os dias apostólicos, graças ao seu resgate das Escrituras como base da fé, à separação entre igreja e estado como paradigma social e à liberdade de consciência como direito individual. Catapultado pela invenção da imprensa, liderado por teólogos católicos e apoiado por autoridades políticas, o movimento transformou a estrutura eclesiástica vigente, sendo a segunda grande ruptura no catolicismo medieval. Os cinco princípios teológicos que nortearam a Reforma (sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solus Christus e Soli Deo Gloria) precisam ser resgatados pelo Cristianismo atual para manter sua relevância e contínua Reforma da Igreja. Como diz o lema: Ecclesia reformata, semper reformanda.


Ribamar Diniz é pastor, escritor e editor. Doutorando em Teologia Sistemática (UAP), Mestre em História (UNIFAP) e Especialista em Missão Urbana (FADBA), atuando como pastor na Associação Norte do Pará e professor Visitante na Faculdade Adventista da Amazônia. 



Referências:

[1] G1 Mundo. “Rei Charles III e papa Leão XIV rezam juntos no Vaticano em gesto inédito desde ruptura religiosa há 500 anos”. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/10/23/rei-charles-iii-papa-leao-xiv-reza-historica.ghtml. Acesso: 29 de outubro de 2025.


[2] Declaração conjunta da Federação Luterana Mundial e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos de 31 de outubro de 2017, ano da comemoração comum da Reforma".   Disponível em: https://www.luterano.org.br/declaracao-conjunta-da-federacao-luterana-mundial-e-do-pontificio-conselho-para-a-promocao-da-unidade-dos-cristaos-de-31-de-outubro-de-2017/. Acesso: 29 de outubro de 2025.

 

 
 
 

1 comentário


CESAR ALEXIS FIGUEROA BLANCO
CESAR ALEXIS FIGUEROA BLANCO
06 de nov. de 2025

Excelente Ribamar. Nunca debemos olvidar el terreno en el que crecieron nuestras raíces.

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© 2020 por Flávio Diniz

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